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Resenhas de Babel: Cultura, Literatura, Filosofia e outros assuntos chatos

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A inebriante liberdade dos Rubayat

Alexandre Gomes

 

"Nada, eles não sabem nada, nada querem saber/ Vês esses ignorantes, eles dominam o mundo./ Se não é deles, chamam-te de descrente" (Khayyam, Rubayat)

 

Durante muito tempo da minha vida fui ateu. Não de um ateísmo sincero, mas um ateísmo religiosamente militante, fruto mais daquela presunção intelectual da adolescência que de um sentimento real. Há alguns anos tento me reconciliar com Deus que, a exemplo de tantas outras dádivas que tenho recebido, me devolveu a fé.

Nem sempre é um caminho fácil porque o ser humano tem muito orgulho de sua liberdade - mesmo quando ela é imaginária - para se curvar à vontade d’Ele. A mim sempre pareceu uma covardia seguir regras ao pé da letra por ter medo de errar, assim como me soa uma impiedade a noção de fazer o bem por desejo do Paraíso ou temor do Inferno.

Ao contrário da imensa maioria da minha comunidade religiosa, penso que se deve seguir a senda reta pelo prazer que ela proporciona e não por ter outros interesses e segundas intenções. Curiosamente encontrei uma das mais belas expressões deste mesmo sentimento numa poetisa e mística muçulmana do Século 8º - Rabi’a al-Adawiyya - no obra de quem um dos poucos leitores desta coluna, meu eterno professor Deonísio da Silva, certamente não deixaria de perceber tantas nuances de semelhanças com Santa Teresa.

Rabi’a disse, por exemplo: "Oh Deus!/ Se eu O adorar por medo do Inferno, queime-me no Inferno/ Se eu O adorar por desejar o Paraíso, expulse-me do Paraíso/ Mas se eu O adorar somente por Si Mesmo, não me negue Sua eterna Beleza". Em outro poema Rabi’a celebra o mesmo desejo da Luz: "Eu Te amo com dois amores: amor para minha felicidade, e amor verdadeiramente digno de Ti/ Quanto ao amor de minha felicidade, que só me ocupe de pensar em Ti e em nada mais/ Quanto ao amor verdadeiramente digno de Ti, que Teus véus caiam e que eu Te veja/ Nenhuma glória para mim nem em um nem no outro, Mas glória a Ti, por aquele e por este".

Certamente tal espécie de conceito dificilmente seria bem aceito no mundo muçulmano, mesmo naquela época áurea tão distante dos assim chamados fundamentalismos contemporâneos, a não ser nos círculos místicos dos sufis, aonde tal tipo de poesia poderia ser compreendida em sua plenitude.

O início do ocaso daquela época foi testemunhado por outro poeta e sufi, o astrônomo Omar Khayyam. Ao contrário de Rabi’a, contudo, o astrônomo teve a felicidade de ser descoberto no Ocidente por Fitzgerald, cuja versão dos Rubayyat - exemplar demonstração da poesia inglesa do século passado, diria Borges não sem ironia - o celebrizaram e mitificaram.

Rabi’a viveu numa época onde sua poesia, mesmo restrita a alguns círculos, era respeitada. Khayyam participou da derrota da criatividade pela tradição. Poucos sabem ao certo o quanto do acirrado ódio de Khayyam aos devotos realmente estava nos Rubayyat originais, como boa parte da grande poesia os rubais foram feitos para serem recitados e só pouco antes de serem descobertos pelo ocidente haviam sido escritos em lingua persa.

Como Homero e Shakespeare, Khayyam também se confunde com uma personagem mítica, se não porque sua existência real seja contestada, ao menos porque em sua obra enxertaram-se tantas coisas que já não se sabe mais o que realmente teria sido feito por ele, quais foram as inserções dos amigos e inimigos.

Mas certamente a preocupação com o excessivo zelo dos devotos deveria estar lá em algum ponto, assim como um certo descaso com a teologia contábil que transforma a fé em uma coleta de cupons para um concurso cujo prêmio é o Paraíso e a derrota é o inferno.

Também está lá uma apologia do vinho inadmissível em um muçulmano, mas facilmente explicável para qualquer um que tenha um vaga informação sobre os sufis para saber que a embriagues em Khayyam é apenas uma metáfora da experiência mística. Isto acabou por criar um paradoxo no qual as mais belas poesias dedicadas ao vinho vieram de fiéis de uma fé a qual proíbe o consumo do álcool.

 


 

 

 

Alexandre Gomes é editor do PRIMEIRA PÁGINA

 

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São Carlos, Sexta-feira, 10 de Março de 2000