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Resenhas de Babel: Cultura, Literatura, Filosofia e outros assuntos chatos

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O diálogo necessário com cristãos e judeus

 

 

Hilal Iskandar

"E não disputeis com os adeptos do Livro (judeus e cristãos) senão da melhor forma, exceto com os iníquos dentre eles. Dizei-lhes: Cremos no que nos foi revelado, assim como no que vos foi revelado antes: nosso Deus e o vosso são Um e a Ele nos submetemos" (Sagrado Alcorão, 29:46)

 

Quem consultar o Sagrado Alcorão verá inúmeros versículos que falam da amizade e tolerância que deve existir para com os Povos do Livro - judeus e cristãos. O Islam não pretendeu ser uma nova religião, mas antes um resgate da religião de Abraão (Ibrahim em árabe) da qual tanto o Judaísmo como o Cristianismo se originaram. Em todo o Alcorão existem referências à esperança que um dia todos se reunirão numa só fé por obra de Deus.

A interação entre as três religiões no Brasil tem sido praticamente nula, em grande parte por culpa dos muçulmanos. Nos fóruns de debates que participo e na correspondência que recebo fica mais do que evidente o quanto é forte a curiosidade dos brasileiros sobre o Islam. Jamais recebi uma carta que pudesse considerar ofensiva e recebi muitas de pessoas se desculpando pelas visões que tinham do Islam antes de terem contato comigo. Fiquei particularmente sensibilizado com o fato de algumas pessoas julgarem o temo "muçulmano" como pejorativo e então davam mil voltas para não usar este termo, o que demonstra uma postura extremamente respeito que me emocionou.

Claro que existe também no Alcorão trechos acusatórios contra os cristãos e principalmente contra os judeus, muito citados inclusive por muitos muçulmanos. Mas isto de forma alguma é uma incoerência ou uma "mudança estratégica" tal como os historiadores judeus e os orientalistas tentaram demonstrar. Para o muçulmano o texto da Torah e dos Evangelhos são tão ou mais sagrados que para judeus e cristãos, são partes do Livro cuja forma final é a dada pelo Alcorão, assim como os profetas judeus e Jesus são também sagrados.

Assim os judeus e cristãos são vistos como irmãos de uma mesma fé, pessoas tementes ao Deus único que os une, pessoas que seguem os Livros que foram revelados por Deus a eles. Devem ser alvo do nosso amor, respeito e compreensão, ter sua fé preservada num Estado Islâmico e com eles deve-se sempre buscar o diálogo nas melhores palavras. E as palavras do Alcorão confirmam este sentimento.

Porém para um muçulmano não pode haver crime mais hediondo do que adulterar as palavras de Deus, ainda mais quando se trata de pessoas que fazem isto em benefício próprio. Creio que já está suficientemente comprovado pela ciência, em especial a Arqueologia e a Lingüística que os textos atuais da Bíblia não correspondem exatamente à época e lugar no qual teriam sido revelados. Alguns de seus conteúdos parecem ser evidentemente adulterados. Assim as referências presentes no Alcorão àqueles que adulteram os textos sagrados evidentemente que não podiam ser elogiosas porque eles cometeram aos olhos do muçulmano um crime gravíssimo.

Os muçulmanos acreditam que eles terão uma punição gravíssima no Dia do Juízo, mas é claro que ela será restrita àqueles que conscientemente fizeram estas adulterações e àqueles que sabem que elas foram feitas. A maioria dos judeus e cristãos não tem a menor culpa ou consciência disto e portanto seria ilógico cobrar deles por uma violação desconhecida.

Não existem portanto restrições por parte dos muçulmanos para que o diálogo seja mantido com judeus e cristãos das diversas denominações. A inexistência deste diálogo é que constitui grave omissão dos muçulmanos porque constitui um testemunho contra a comunidade islâmica como um todo. Certamente é inegável que a omissão da comunidade muçulmana neste diálogo contribui para que o Islam seja incompreendido no ocidente quase tanto como a intensa propaganda anti-islâmica e a ação de líderes que se dizem muçulmanos apenas para iludir os povos que dominam.

É claro que este diálogo não pode ignorar as diferenças, deve-se sempre ser sincero e apontar as discordâncias e causas para ela de forma não dogmática ou sectária. Não se deve omitir que os muçulmanos não podem aceitar a possibilidade de Jesus ser Deus, ou a existência do pecado original ou a possibilidade da crucificação ter expiado os pecados dos cristãos, bem como não é possível admitir que algum povo possa ser o "povo escolhido" e que isto lhe dê a supremacia sobre os outros.

A discussão não dogmática destas questões deixa claro que a abordagem do Islam não é fanática ou intolerante mas baseada em preceitos éticos de base racional, enfim que corresponde a uma visão de mundo humanista e progressista. Ao mesmo tempo mostra que as semelhanças entre as três fés é grande e que existem muitos pontos nos quais é possível - diria mesmo necessário - a colaboração das três grandes religiões reveladas.

Os exemplos dos pontos nos quais esta contribuição é necessária são muitos. O materialismo e o individualismo que tem dominado o mundo é contrário às três fés, bem como a escalada pornográfica, a dissolução da família, o aumento da intolerância étnico-religiosa e, acima de tudo, a miséria e a fome que tem atingido grandes setores da população mundial. Esta solidariedade aos que são vítimas da fome e da miséria é comum às três fés e certamente às pessoas de bom coração de qualquer fé, porque não realizar um trabalho conjunto para ajudar nestas emergências?

Creio que a palavra chave para o estabelecimento de um relacionamento mais cordial entre muçulmanos, judeus e cristãos é o trabalho conjunto em ações concretas. A convivência no trabalho lado a lado é capaz de operar milagres na tolerância. Através deles passamos a conhecer as pessoas tal como elas são no cotidiano, trocamos experiências, reconhecemos identidades, percebemos as boas-vontades alheias e deixamos de enxergar o fiel de outra religião como "o outro" para vê-lo como "o semelhante".

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São Carlos, Segunda-feira, 27 de Março de 2000