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A literatura do assombro de Borges
Alexandre Gomes
Borges é daquele tipo de autor cujo número de leitores é inversamente proporcional ao de comentadores. Também é um autor muito imitado, mas daquele tipo de imitação grosseira que mais se assemelha a uma caricatura. Tudo que em Borges é natural e original soa como pedante e "deja-vu" nos outros, e falo sem remorsos porque incluo muito do que escrevi nesta categoria caricata. A imensa erudição de Borges, que nos seus textos é algo suave a ponto de parecer casual, soa nos outros como um texto tirado de enciclopédia antiga. O estilo rico em inovações de Borges se transforma, quando caricaturado por outros, em desculpas para esconder a ignorância das regras do bom texto. As histórias assombrosas de labirinticas de Borges vêem-se transmutadas, quando copiadas sem os devidos méritos, em argumentos para quem é incapaz de contar uma simples história. Mas o mais grave de todas estas mudanças é o pseudo-hermetismo - eterna desculpa para quem não é incapaz de atrair público - que os leitores rápidos e superficiais criam nas próprias obras. Por mais que se diga o contrário, Borges jamais escreveu apenas para uma meia dúzia de iluminados. Ainda que a erudição ajude muito a entender melhor Borges, mesmo as suas fantasias mais metafísicas são acessíveis ao leitor comum. Ao assombro que Borges disse que a Literatura não podia prescindir o autor ajuntou uma coerência e clareza que torna o objeto mais inusitado ganhar realidade, mesmo sem grandes e exaustivas descrições. As referências apócrifas e camufladas ao longo do texto existem e dificilmente alguém seria capaz de identificar todas. Mas mesmo sem as conhecer é possível apreciar o texto porque ele tem valor por si mesmo. Nas mãos dos imitadores inábeis este processo de referências transformou-se em pouco mais de uma colagem grotesca, uma desculpa para transformar tesoura e cola em ferramentas literárias que no extremo faria com que dentro de duas ou três décadas a literatura desaparecesse. Borges, por qualquer motivo inexplicável, também tornou-se um dos ícones da medíocre geração de iconoclastas da literatura atual. A associação é certamente inusitada, até porque ao contrário de qualquer outra geração de iconoclastas anteriores - que conheciam bem os ícones eu destruíam - os atuais tentam acabar com os clássicos para não terem de fazer o dever de casa. É a ignorância, não o desejo de inovar, que move boa parte das novas safras de escritores do mundo. Curioso que digam se espelhar em Borges já que tão poucos chegaram a se debruçar sobre os clássicos empoeirados quanto o autor argentino. Borges certamente foi um dos últimos grandes escritores que o mundo viu, ainda que seu estilo vibrante e intenso jamais tenha lhe permitido escrever mais do que contos de algumas páginas. É que cada uma destas poucas páginas é tão intensa que o esforço de escrever algo mais longo seria monstruoso demais. Certamente pela mente dele passavam tantas idéias que seria incapaz que ele se concentrasse em algumas delas por mais tempo do que o necessário para escrever um pequeno texto. Tal como os grandes homens que viveram pouco por preferirem uma vida curta e intensa a uma longa e tediosa, as obras de Borges concentram em poucas linhas a intensidade do eterno e do infinito, como se cada uma fosse um aleph a concentrar todo o universo em um único ponto.
Alexandre Gomes é editor do PRIMEIRA PÁGINA |